Bananas, bananas
por Giulia Moon
Sempre fui um sujeito decente e jamais pensei em me meter em apuros que não pudesse contornar. O que faz um homem como eu, resolvido, adulto, bonitão e politicamente correto entrar numa fria? Bem, vou lhes contar e me digam o que vocês acham.

Foi numa noite de lua cheia há cerca de cinco anos atrás. Eu estava correndo nu em pêlo no parque como sempre faço na minha forma costumeira de lobo. Com o propósito de localizar o meu jantar, parei num lugar bem isolado e farejei o ar. Havia por toda a redondeza um cheiro inconfundível de BigMac com fritas e talvez, hum, umas tortinhas de banana. Argh! Não suportava bananas, mas podia agüentar. Com toda a minha experiência de um Canis Lupus respeitável de cento e oitenta anos, deduzi que havia por ali um casalzinho suculento de humanos e fui ao encontro do meu fast-food, feliz da vida.

A alguns metros dali, dei de cara com uns noventa quilos de saudável carne fresca assustada: um baita garotão bem-crescido de lindas bochechas rosadas. Ao seu lado, estava uma magricelinha de óculos mordiscando a tortinha detestável de banana. Fiz uma escolha rápida de menu na minha mente de predador e dispensei de cara a possibilidade de degustar a garota, pois ela cheirava a banana. Fui logo pulando no pescoço do gorduchinho e aproveitando bem as suas reservas de proteína e colesterol. Tudo se passou de forma bem natural ao estilo lupino: muito barulho, sangue e tripas voando. A garota assistia tudo com os olhos grandões arregalados, sempre a tal da torta nas mãos. Depois de acabar com o rapagão, achei que ainda cabia uma sobremesa e voltei a minha atenção para ela, mas o cheiro de banana voltou a atacar minhas narinas e provocou um espasmo suspeito no estômago. Assim, abandonei-a e desapareci correndo pela mata fechada, pois o dia já amanhecia e eu estava começando a me transformar em humano.

O processo era sempre doloroso e caí no chão, urrando e bufando, até que a minha forma humana explodiu para fora do animal. Quando acordei, a luz do dia já estava começando a surgir e, ao meu lado, estava a garota magricela, minhas roupas na mão. Ela tinha assistido tudo de camarote. Gaguejei algo como desculpa, mas sabia que não adiantava, meu segredo tinha sido descoberto. Então, lancei mão de algo totalmente canalha, admito. Comecei a chorar e vomitei toda a velha ladainha da criatura infeliz que eu era, do monstro que habitava o meu pobre ser, de como lutava bravamente para não ser dominado pela minha porção animal, etc, etc. Bem, deu certo. Ela me abraçou e chorou, comovida. Eu lá, peladinho. Aí fiz a primeira besteira das muitas que se seguiram... Vocês podem imaginar o quê. A menina era virgem e menor, filha de um poderoso político. Por motivos óbvios tive que me casar com ela cerca de um mês depois. Mas tudo estava bem resolvido na minha mente, bem humana na sua vigarice. Se ela começasse a me encher, eu a comeria e pronto!

No começo foi bom, confesso. O figurão era porreta, como ele chamava os amigos. E eu podia descontar meus instintos animais em seus desafetos políticos, o que significava fonte inesgotável de carne de primeira, embora meio saturada de lipídios. O sogrão sempre elogiava a minha técnica para sumir com os corpos depois do "serviço". Batia nas minhas costas, protetor, e bendizia o dia em que me tornei seu genro. A garota magricela fez uma dúzia de implantes de silicone e virou um avião turbinado. Disse que me amava e prometeu nunca mais comer a tal tortinha nojenta de banana, depois que lhe pedi com o meu jeitinho selvagem, bufando na sua orelha até ela se ralar toda de prazer.

Mas as coisas nem sempre correm como você espera e logo o sogrão começou a exigir que eu passasse a prestar meus serviços com uma freqüência assustadora. Ultimamente, não dou conta de fazer sumir tanta carne. Precisei comprar com urgência um freezer de 650 litros pra guardar os restos das minhas caçadas. E logo mais vou precisar de outro. Nestes tempos de economia de energia, abusar dos eletrodomésticos pode soar anti-patriótico, mas não é nada comparado à sanha assassina do sogrão. Vocês não acreditariam na quantidade de inimigos que o velho anda fazendo nos últimos tempos, perto da eleição! Resultado: engordei! Sou uma sombra do cara gostosão que era - e uma sombra bem gorda.

O pior é essa sensação de que a minha mulher anda esquisita... Já não imita a gatinha no cio quando me transformo no lobão viril de sempre. Por falar nela, sinto o seu cheiro, a minha esposinha querida está chegando. Que estranho, tem um outro odor... Algo diferente do perfume francês dela. Hum, que cheiro é este? Tão familiar... Há algo de podre no... Bah para citações, vocês me entenderam. Oh-oh, mais passos, ela não vem sozinha... O pior é que hoje é lua cheia e eu já estou quase todo coberto de pêlos. Assim, no meio da transformação, não consigo me mexer. Espere... São homens armados, posso ouvir o engatilhar das espingardas com a minha audição de lobo. Saco! Acabei de reconhecer o cheiro esquisito. Bananas. Ela voltou a comer a maldita torta de bananas...