Sempre fui um sujeito decente e jamais pensei em
me meter em apuros que não pudesse contornar. O que faz um homem
como eu, resolvido, adulto, bonitão e politicamente correto entrar
numa fria? Bem, vou lhes contar e me digam o que vocês acham.
Foi numa noite de lua cheia há cerca de cinco anos atrás.
Eu estava correndo nu em pêlo no parque como sempre faço
na minha forma costumeira de lobo. Com o propósito de localizar
o meu jantar, parei num lugar bem isolado e farejei o ar. Havia por
toda a redondeza um cheiro inconfundível de BigMac com fritas
e talvez, hum, umas tortinhas de banana. Argh! Não suportava
bananas, mas podia agüentar. Com toda a minha experiência
de um Canis Lupus respeitável de cento e oitenta anos, deduzi
que havia por ali um casalzinho suculento de humanos e fui ao encontro
do meu fast-food, feliz da vida.
A alguns metros dali, dei de cara com uns noventa quilos de saudável
carne fresca assustada: um baita garotão bem-crescido de lindas
bochechas rosadas. Ao seu lado, estava uma magricelinha de óculos
mordiscando a tortinha detestável de banana. Fiz uma escolha
rápida de menu na minha mente de predador e dispensei de cara
a possibilidade de degustar a garota, pois ela cheirava a banana.
Fui logo pulando no pescoço do gorduchinho e aproveitando bem
as suas reservas de proteína e colesterol. Tudo se passou de
forma bem natural ao estilo lupino: muito barulho, sangue e tripas
voando. A garota assistia tudo com os olhos grandões arregalados,
sempre a tal da torta nas mãos. Depois de acabar com o rapagão,
achei que ainda cabia uma sobremesa e voltei a minha atenção
para ela, mas o cheiro de banana voltou a atacar minhas narinas e
provocou um espasmo suspeito no estômago. Assim, abandonei-a
e desapareci correndo pela mata fechada, pois o dia já amanhecia
e eu estava começando a me transformar em humano.
O processo era sempre doloroso e caí no chão, urrando
e bufando, até que a minha forma humana explodiu para fora
do animal. Quando acordei, a luz do dia já estava começando
a surgir e, ao meu lado, estava a garota magricela, minhas roupas
na mão. Ela tinha assistido tudo de camarote. Gaguejei algo
como desculpa, mas sabia que não adiantava, meu segredo tinha
sido descoberto. Então, lancei mão de algo totalmente
canalha, admito. Comecei a chorar e vomitei toda a velha ladainha
da criatura infeliz que eu era, do monstro que habitava o meu pobre
ser, de como lutava bravamente para não ser dominado pela minha
porção animal, etc, etc. Bem, deu certo. Ela me abraçou
e chorou, comovida. Eu lá, peladinho. Aí fiz a primeira
besteira das muitas que se seguiram... Vocês podem imaginar
o quê. A menina era virgem e menor, filha de um poderoso político.
Por motivos óbvios tive que me casar com ela cerca de um mês
depois. Mas tudo estava bem resolvido na minha mente, bem humana na
sua vigarice. Se ela começasse a me encher, eu a comeria e
pronto!
No começo foi bom, confesso. O figurão era porreta,
como ele chamava os amigos. E eu podia descontar meus instintos animais
em seus desafetos políticos, o que significava fonte inesgotável
de carne de primeira, embora meio saturada de lipídios. O sogrão
sempre elogiava a minha técnica para sumir com os corpos depois
do "serviço". Batia nas minhas costas, protetor,
e bendizia o dia em que me tornei seu genro. A garota magricela fez
uma dúzia de implantes de silicone e virou um avião
turbinado. Disse que me amava e prometeu nunca mais comer a tal tortinha
nojenta de banana, depois que lhe pedi com o meu jeitinho selvagem,
bufando na sua orelha até ela se ralar toda de prazer.
Mas as coisas nem sempre correm como você espera e logo o sogrão
começou a exigir que eu passasse a prestar meus serviços
com uma freqüência assustadora. Ultimamente, não
dou conta de fazer sumir tanta carne. Precisei comprar com urgência
um freezer de 650 litros pra guardar os restos das minhas caçadas.
E logo mais vou precisar de outro. Nestes tempos de economia de energia,
abusar dos eletrodomésticos pode soar anti-patriótico,
mas não é nada comparado à sanha assassina do
sogrão. Vocês não acreditariam na quantidade de
inimigos que o velho anda fazendo nos últimos tempos, perto
da eleição! Resultado: engordei! Sou uma sombra do cara
gostosão que era - e uma sombra bem gorda.
O pior é essa sensação de que a minha mulher
anda esquisita... Já não imita a gatinha no cio quando
me transformo no lobão viril de sempre. Por falar nela, sinto
o seu cheiro, a minha esposinha querida está chegando. Que
estranho, tem um outro odor... Algo diferente do perfume francês
dela. Hum, que cheiro é este? Tão familiar... Há
algo de podre no... Bah para citações, vocês me
entenderam. Oh-oh, mais passos, ela não vem sozinha... O pior
é que hoje é lua cheia e eu já estou quase todo
coberto de pêlos. Assim, no meio da transformação,
não consigo me mexer. Espere... São homens armados,
posso ouvir o engatilhar das espingardas com a minha audição
de lobo. Saco! Acabei de reconhecer o cheiro esquisito. Bananas. Ela
voltou a comer a maldita torta de bananas...