Jaques olhou mais uma vez para Ana. Sentiu apenas uma sensação
incontrolável de fastio. Não agüentava mais as
súplicas, os lamentos, a sua voz sempre pedindo, pedindo por
amor. Ana fingia que não percebia. Mas ele sabia que, no fundo,
ela sabia. Não a amava mais.
Foi então que aquela garotinha magra de longos cabelos castanhos
chamou a sua atenção. Em meio ao frenético vai-e-vem
do pessoal da produção do megashow, ela estava destoando,
escondida nas sombras da coxia. Alguém diferente. Estava farto
das pessoas que viviam ao seu redor como mariposas. Como Ana. Pensou
em divertir-se um pouco.
Aproximou-se e, fingindo casualidade, comentou algo a respeito da
estréia prevista para amanhã. A garota, quase uma adolescente,
pareceu completamente desnorteada. Jaques, o grande astro de rock,
estava mesmo falando com ela? Não era hipócrita a ponto
de aborrecer-se com essa adoração. Jaques, o superastro,
certo? Se não causasse esse frisson, podia procurar outro emprego.
E isso ia ser bem difícil. Não era um dos caras mais
inteligentes que conhecia. Tinha a aparência. Tinha a voz. Tinha
a qualidade de parecer sempre um animal sensual. E era tudo. Mas considerava-se
esperto o suficiente para saber disso e aproveitar o máximo
enquanto durasse. Como fizera com a sua relação com
Ana. Ora, esqueça Ana, disse para si mesmo. Chegou mais perto
da garota e disse mais algumas gracinhas bobas. O que importa é
o modo de dizer. Isso ele sabia. A menina ficou vermelha e respondeu
algo inaudível. Tudo bem, ela estava nas suas mãos.
Será que era virgem? Tão sem-gracinha que era capaz.
Nunca tinha sido o primeiro antes. Quem sabe desta vez.
Afastou-se das pessoas, conduzindo a menina pelos corredores. Estava
um tanto escuro e ele não conseguia ver direito, só
sabia que a garota agarrava-se ao seu braço, tremendo um pouco.
Era só uma brincadeira, mas ela estava levando a sério.
Sério demais. Problema dela... Que nada, problema dele se ela
for menor. Talvez fosse melhor desistir da garota antes que seja tarde.
É, ia falar pra ela. Só não o fez porque um homem
vinha em sua direção. Era um dos cenaristas, pois trazia
uma espécie de saco de lona na mão.
Curioso como as coisas podem mudar de repente. A visão do homem
carregando um saco... A pressão das mãos da garota no
seu braço. A picada de uma injeção. Um instante
depois, estava no chão, atordoado. A menina sobre ele, a sua
mão fria tampando a boca dele. “Não grite, Jaques”
dizia ela, baixinho. “Não se mexa, não vai demorar
nada...” O que estavam fazendo? Viu o rosto tenso da garota.
O homem se aproximando com o saco. Cobrindo o seu corpo paralisado.
E depois não viu mais nada.
Acordou amarrado e amordaçado numa cama, num quarto sem janelas.
Havia dois homens ali - um deles era o mesmo que o trouxera. Um homem
grande e forte com fartos cabelos ruivos e pele clara. Um rosto inesquecível.
O outro era mulato, também forte e jovem. O fato de estarem
com os rostos descobertos só aumentou o seu pavor. Não
tinham receio de serem reconhecidos. Será que iam matá-lo?
- Não tenha medo, meu amor.
A garota também estava lá, e era difícil de acreditar
que era a mesma. Havia no seu rosto uma expressão cruel que
nem de longe transparecia antes. Parecia bem mais velha. Mais do que
Ana. Não podia deixar de imaginar que, se não tivesse
deixado Ana, isso não teria acontecido.
- Não vamos matar você.
Ela aproximou-se e sentou-se na cama. Acalme-se, pensou Jaques, tentando
se controlar. A garota o enganara com uma grande atuação,
o seu comparsa o dopou e, talvez com a ajuda do outro homem, o trouxeram
para o cativeiro. Era só. Pediriam uma fortuna por ele e o
seu empresário ia pagar, fazendo das tripas o coração.
E seria solto. Um final feliz. Mas que seja logo, pelo amor de Deus...
A garota sorria de um modo estranho. Ela não é normal,
pensou, apavorado.
- Peguem a Polaroid. - ela ordenou.
Jaques foi fotografado em vários ângulos. O rosto com
a mordaça. As mãos amarradas. A tatuagem de cobra no
peito. Por fim, um plano geral do corpo na cama.
- Prontinho, meu querido... - a voz dela era radiante, como se fizesse
uma travessura. - Agora, vamos enviar estas fotos junto com o pedido
de resgate. Não acha que eles vão pagar rapidinho quando
o virem nesse estado? Se não pagarem, vamos mandar para os
jornais! E depois, começaremos a enviar coisas mais chocantes.
Quem sabe, eles prefiram recebê-lo de volta em partes?
- Precisa dizer isso? - disse o homem ruivo. - Ele já está
bastante assustado.
Ela riu. Gargalhou, na verdade. Depois, saiu do quarto, levando as
fotos. Os dois seqüestradores não falaram mais.
Passaram-se várias horas e as cordas feriam seus pulsos. Ele
reclamou, gemendo, e foi atendido pelos carcereiros. A mordaça
foi removida e os nós foram afrouxados. Mesmo assim, era difícil
não sentir as câimbras que começaram a atormentá-lo.
Por sorte, a garota voltou.
- Vejam, garotos, que maravilha...
Ela abriu uma bolsa de viagem e espalhou milhares de cédulas
de dez, vinte e cinqüenta dólares sobre o corpo de Jaques.
Uma quantidade impressionante. Ele estava quase feliz, também.
Sentia-se aliviado com a competência do empresário.
- Quando vão me soltar? - ousou falar.
Os dois homens mantiveram-se em silêncio. A garota parou de
sorrir. Jaques sentiu os cabelos se eriçarem.
- Mas vocês receberam o resgate! Precisam me soltar...
A garota o fitou com frieza.
- Jaques, você não entendeu nada, não é?
Já tenho o que queria dos humanos. Dinheiro, muito dinheiro
para me manter isolada, protegida por um longo tempo... Agora que
está tudo resolvido, posso fazer o que quiser com você...
Jaques olhou, horrorizado, para os rostos penalizados dos dois seqüestradores.
E depois para a boca da garota, cuidadosamente pintada com batom vermelho.
Os lábios estavam entreabertos. A língua rosada movia-se
com volúpia. Notou pela primeira vez os caninos salientes de
um predador. Um animal feroz. Uma vampira. E ela salivava de fome...