Isis
por Giulia Moon

Ísis espiou pelo vão da porta e viu toda a família Katzemberg reunida. Antigamente, como toda gata, não suportava essas reuniões familiares que vinham quebrar a paz e o silêncio rotineiros da casa. Gostava mesmo era de um dia após o outro, sem mudanças e sem surpresas, tudo esperado, tudo resolvido. Nada que pudesse perturbar a sua noite...
Mas aquela era uma noite especial. A idéia vinha crescendo na sua mente há muito, muito tempo. Há quanto? Não sabia ao certo. Sabia apenas que um dia, zás! Foi como se despertasse de um longo sono. Começara a ter idéias. Tudo o que antes passava pela sua mente como algo obscuro e sem forma tornaram-se convicções, certezas, pensamentos. Por isso, agora, quando fixava seus grandes olhos verdes nos humanos da família Katzemberg, estava fazendo mais do que pedir por comida ou um pouco de atenção. Estava vigiando, observando, procurando saber mais...
Logo outros começaram a notar a diferença. Primeiro foi o Siamês da esquina, que passou a acompanhá-la nas suas perambulações noturnas por conta própria. Depois, os gatos malhados do beco, o Caolho da rua de baixo, o velho Amarelo da padaria... Ísis sabia que eles ainda não compreendiam a razão e a importância de tudo aquilo. Mas ela, sim... Ela entendia toda a extensão do problema e sabia como resolvê-lo. Bastava que eles a seguissem e fizessem o necessário na hora certa. Foi assim que, agora, eles eram centenas, milhares. Gatos de todas as epécies, de todos os tamanhos, de todos os cantos da cidade esperando pelo seu sinal. Tudo o que existia antes iria ser destruído. E a Era dos Felinos iria começar finalmente...
Agora, era chegada noite esperada. Luzes, música, comida e bebedeira. Todos os humanos festejando algo que Ísis não fazia questão de entender. Ela apenas arreganhava levemente os dentes afiados ao observá-los. A raiva latente crescia mais e mais dentro de sua mente recém-nascida para a verdade. Mal podia esperar para comandar a grande revolução... Foi então que ouviu os sinos, os rojões, os risos de alegria! Era o momento de mandar o sinal. Mas, subitamente, foi erguida ao ar, rodopiando em meio à maciez e perfume dos bracinhos rechonchudos de Emily Katzemberg.
“Ísis, Ísis, eu te amo!!!” Falava baixinho a menina, afundando o seu rostinho rosado no pescoço de Ísis. “Feliz Natal, Ísis!” Dizia ela, rindo baixinho e beijando o nariz da gata. Ah, seria tão simples atacar agora, afundar as presas afiadas na carne nova e fresca da garganta da criança... Antes que os outro humanos percebessem, já a teria estraçalhado e dado o sinal que o grupo aguardava! Mas um ruído esquisito partia de sua própria garganta. Era um rom-rom baixo, que começava a aumentar contra a sua vontade e o seu corpo, antes tenso e preparado para o combate, agora estava tão estranhamente amolecido... Por todos os deuses felinos, até os seus olhos teimavam em fechar-se numa clara demonstração de prazer!
Ouviu, então as vozes dos adultos, dizendo à criança para largar a gata. Já era tarde e ela deveria colocar o animal para fora da casa. Imediatamente, as lágrimas afloraram nos olhinhos de Emily. Ísis viu os beicinhos rosados contraírem-se antes de irromperem num choro sentido, magoado... E percebeu, nesse instante, o seu próprio coração quase explodir com tanta tristeza!
Mas o choro da criança alcançara o seu objetivo. Nesta noite, apenas nesta noite de Natal, foi permitido à Emily dormir com a sua querida Ísis...
O dia já amanhecia, mas Ísis vigiava atentamente, deitada nos pés da caminha de Emily. Sabia que milhares de seus ainda aguardavam a chamada. Quem sabe quantos já estão próximos de alcançar a revelação, assim como ela, Ísis, alcançara? Um dia, algum deles daria o sinal. E ela precisava estar pronta... Por isso ela vigiava. Precisava se certificar que nada aconteceria à sua querida Emily... Nunca! Agora entendia plenamente a grande verdade, o misterioso segredo dos felinos... E, naquela manhã de Natal, apenas o leve ressonar tranqüilo de Emily Katzemberg quebrava o silêncio...

Fim