Ísis espiou pelo vão da porta e viu toda a família
Katzemberg reunida. Antigamente, como toda gata, não suportava
essas reuniões familiares que vinham quebrar a paz e o silêncio
rotineiros da casa. Gostava mesmo era de um dia após o outro,
sem mudanças e sem surpresas, tudo esperado, tudo resolvido.
Nada que pudesse perturbar a sua noite...
Mas aquela era uma noite especial. A idéia vinha crescendo
na sua mente há muito, muito tempo. Há quanto? Não
sabia ao certo. Sabia apenas que um dia, zás! Foi como se despertasse
de um longo sono. Começara a ter idéias. Tudo o que
antes passava pela sua mente como algo obscuro e sem forma tornaram-se
convicções, certezas, pensamentos. Por isso, agora,
quando fixava seus grandes olhos verdes nos humanos da família
Katzemberg, estava fazendo mais do que pedir por comida ou um pouco
de atenção. Estava vigiando, observando, procurando
saber mais...
Logo outros começaram a notar a diferença. Primeiro
foi o Siamês da esquina, que passou a acompanhá-la nas
suas perambulações noturnas por conta própria.
Depois, os gatos malhados do beco, o Caolho da rua de baixo, o velho
Amarelo da padaria... Ísis sabia que eles ainda não
compreendiam a razão e a importância de tudo aquilo.
Mas ela, sim... Ela entendia toda a extensão do problema e
sabia como resolvê-lo. Bastava que eles a seguissem e fizessem
o necessário na hora certa. Foi assim que, agora, eles eram
centenas, milhares. Gatos de todas as epécies, de todos os
tamanhos, de todos os cantos da cidade esperando pelo seu sinal. Tudo
o que existia antes iria ser destruído. E a Era dos Felinos
iria começar finalmente...
Agora, era chegada noite esperada. Luzes, música, comida e
bebedeira. Todos os humanos festejando algo que Ísis não
fazia questão de entender. Ela apenas arreganhava levemente
os dentes afiados ao observá-los. A raiva latente crescia mais
e mais dentro de sua mente recém-nascida para a verdade. Mal
podia esperar para comandar a grande revolução... Foi
então que ouviu os sinos, os rojões, os risos de alegria!
Era o momento de mandar o sinal. Mas, subitamente, foi erguida ao
ar, rodopiando em meio à maciez e perfume dos bracinhos rechonchudos
de Emily Katzemberg.
“Ísis, Ísis, eu te amo!!!” Falava baixinho
a menina, afundando o seu rostinho rosado no pescoço de Ísis.
“Feliz Natal, Ísis!” Dizia ela, rindo baixinho
e beijando o nariz da gata. Ah, seria tão simples atacar agora,
afundar as presas afiadas na carne nova e fresca da garganta da criança...
Antes que os outro humanos percebessem, já a teria estraçalhado
e dado o sinal que o grupo aguardava! Mas um ruído esquisito
partia de sua própria garganta. Era um rom-rom baixo, que começava
a aumentar contra a sua vontade e o seu corpo, antes tenso e preparado
para o combate, agora estava tão estranhamente amolecido...
Por todos os deuses felinos, até os seus olhos teimavam em
fechar-se numa clara demonstração de prazer!
Ouviu, então as vozes dos adultos, dizendo à criança
para largar a gata. Já era tarde e ela deveria colocar o animal
para fora da casa. Imediatamente, as lágrimas afloraram nos
olhinhos de Emily. Ísis viu os beicinhos rosados contraírem-se
antes de irromperem num choro sentido, magoado... E percebeu, nesse
instante, o seu próprio coração quase explodir
com tanta tristeza!
Mas o choro da criança alcançara o seu objetivo. Nesta
noite, apenas nesta noite de Natal, foi permitido à Emily dormir
com a sua querida Ísis...
O dia já amanhecia, mas Ísis vigiava atentamente, deitada
nos pés da caminha de Emily. Sabia que milhares de seus ainda
aguardavam a chamada. Quem sabe quantos já estão próximos
de alcançar a revelação, assim como ela, Ísis,
alcançara? Um dia, algum deles daria o sinal. E ela precisava
estar pronta... Por isso ela vigiava. Precisava se certificar que
nada aconteceria à sua querida Emily... Nunca! Agora entendia
plenamente a grande verdade, o misterioso segredo dos felinos... E,
naquela manhã de Natal, apenas o leve ressonar tranqüilo
de Emily Katzemberg quebrava o silêncio...
Fim