Rose Mistral
por Giulia Moon

Rose Mistral olhou para o relógio de pêndulo na parede. Maravilhosamente antigo, esse negócio de ser pontual. Gostaria de ter nascido inglesa. Batendo ponto como um velho e confiável Big Ben. Mas tinha nascido em São Paulo, no bairro da Aclimação. Ajeitou a jaqueta de vinil preta e calçou os coturnos de solas grossas. Passou o rímel nos cílios. O lápis em torno dos olhos grandes e fundos. Riu. Não eram verdes ou azuis. Eram negros. Ouvia Vanessa Mae – “Hocus Pocus”, música de Focus regravada. Gostava de coisas antiquadas. Era uma maluca antiquada. Abaixou a jaqueta até o meio das costas. Hum, assim todos poderiam ver a sua tatoo de rosa. Rose-rosa... Cheia de espinhos. Yeah. Soltou uma gargalhada e deslizou pela janela do apartamento. Ganhou a rua à moda vampírica. Era noite. Mais uma noite de som & fúria...
– Hey, Johnny. Tudo ok?
O garoto de cabelos loiros a esperava no bar da esquina. Ele jamais se atrasaria. Rose não gostava de atrasos. E Rose mandava.
– Tudo em cima, Rose... Agora me dá um beijo.
Ela o segurou pelos ombros e deu-lhe o que pedia. Não era beijo, claro. Era muito melhor. Rose mordeu só um pouquinho. Para os humanos, seria apenas uma carícia mais lasciva entre dois jovens. Para ela, o primeiro gole de sangue da noite. Johnny se assustou um pouco. Mas gemeu de prazer.
– Mais! – O garoto humano pediu.
– Muito mais, dear... – Ela sussurrou no seu ouvido. – Cadê a moto?
Ele montou, orgulhoso, na CB500. Negra como a noite. Boa máquina. Ela montou atrás. As suas mãos introduziram-se sob a jaqueta de couro negro do rapaz. Huuuum... macio e cheiroso. Partiram. Rose dizia para voar. Johnny obedecia. Céu, estrelas, vento na cara. No ouvido, o discman a todo volume. “Sympathy for The Devil”. Música dos Stones por Gun’s and Roses. De novo: Roses & Rose… Antiquada e boa Rose Mistral.
Barzinho caindo aos pedaços no Santo Amaro. Roqueiros adolescentes curtindo o velho e bom Rush. E Kiss. Ahhh, “Rock’n Roll All Night”. O vocalista da banda levava a pequena platéia ao delírio. Rose anotou mentalmente para experimentar aquele sangue um dia. Caliente. Áspero. Vozes roucas costumam dar bom material de coleta. Mas, por ora, tinha o seu Johnny. No fundo do bar, mais uma mordida. Ele ia à loucura. Ela também. Sangue quente, delicioso, generoso. Um gole de cerveja para ele. Ok. Mais uma vez. E de novo.
– Vamos lá para trás, Rose... Lá fora não tem ninguém.
Ia, claro que ia! Rose é toda sua, baby. Johnny, Johnny. Lindos cabelos loiros. Cara, que pinta de inglês… Mais uma mordida. A última. Be good, Johnny... Good bye, Johnny.
Vento na cara. Tinha esquecido de retocar o batom. Never mind. A CB roncando na avenida quase vazia de madrugada de domingo. Alguns caras bonzinhos voltando das casas de suas namoradas ajuizadas. Carrinhos motor 1.0. Rose acelerou a moto, deixando-os pra trás. Garotas más chegam tarde em casa. Mesmo as mais antiquadas...

Fim
18 de maio de 2003.
Para a moçada do WingHead