Rose Mistral olhou para o relógio de pêndulo
na parede. Maravilhosamente antigo, esse negócio de ser pontual.
Gostaria de ter nascido inglesa. Batendo ponto como um velho e confiável
Big Ben. Mas tinha nascido em São Paulo, no bairro da Aclimação.
Ajeitou a jaqueta de vinil preta e calçou os coturnos de solas
grossas. Passou o rímel nos cílios. O lápis em
torno dos olhos grandes e fundos. Riu. Não eram verdes ou azuis.
Eram negros. Ouvia Vanessa Mae – “Hocus Pocus”,
música de Focus regravada. Gostava de coisas antiquadas. Era
uma maluca antiquada. Abaixou a jaqueta até o meio das costas.
Hum, assim todos poderiam ver a sua tatoo de rosa. Rose-rosa... Cheia
de espinhos. Yeah. Soltou uma gargalhada e deslizou pela janela do
apartamento. Ganhou a rua à moda vampírica. Era noite.
Mais uma noite de som & fúria...
– Hey, Johnny. Tudo ok?
O garoto de cabelos loiros a esperava no bar da esquina. Ele jamais
se atrasaria. Rose não gostava de atrasos. E Rose mandava.
– Tudo em cima, Rose... Agora me dá um beijo.
Ela o segurou pelos ombros e deu-lhe o que pedia. Não era beijo,
claro. Era muito melhor. Rose mordeu só um pouquinho. Para
os humanos, seria apenas uma carícia mais lasciva entre dois
jovens. Para ela, o primeiro gole de sangue da noite. Johnny se assustou
um pouco. Mas gemeu de prazer.
– Mais! – O garoto humano pediu.
– Muito mais, dear... – Ela sussurrou no seu ouvido. –
Cadê a moto?
Ele montou, orgulhoso, na CB500. Negra como a noite. Boa máquina.
Ela montou atrás. As suas mãos introduziram-se sob a
jaqueta de couro negro do rapaz. Huuuum... macio e cheiroso. Partiram.
Rose dizia para voar. Johnny obedecia. Céu, estrelas, vento
na cara. No ouvido, o discman a todo volume. “Sympathy for The
Devil”. Música dos Stones por Gun’s and Roses.
De novo: Roses & Rose… Antiquada e boa Rose Mistral.
Barzinho caindo aos pedaços no Santo Amaro. Roqueiros adolescentes
curtindo o velho e bom Rush. E Kiss. Ahhh, “Rock’n Roll
All Night”. O vocalista da banda levava a pequena platéia
ao delírio. Rose anotou mentalmente para experimentar aquele
sangue um dia. Caliente. Áspero. Vozes roucas costumam dar
bom material de coleta. Mas, por ora, tinha o seu Johnny. No fundo
do bar, mais uma mordida. Ele ia à loucura. Ela também.
Sangue quente, delicioso, generoso. Um gole de cerveja para ele. Ok.
Mais uma vez. E de novo.
– Vamos lá para trás, Rose... Lá fora não
tem ninguém.
Ia, claro que ia! Rose é toda sua, baby. Johnny, Johnny. Lindos
cabelos loiros. Cara, que pinta de inglês… Mais uma mordida.
A última. Be good, Johnny... Good bye, Johnny.
Vento na cara. Tinha esquecido de retocar o batom. Never mind. A CB
roncando na avenida quase vazia de madrugada de domingo. Alguns caras
bonzinhos voltando das casas de suas namoradas ajuizadas. Carrinhos
motor 1.0. Rose acelerou a moto, deixando-os pra trás. Garotas
más chegam tarde em casa. Mesmo as mais antiquadas...
Fim
18 de maio de 2003.
Para a moçada do WingHead