Maya olhou para o céu noturno através
da porta que dava para a sacada e sentiu que esta noite a lua não
iluminaria seus passos. Não gostava de lua nova. Nem gostava
dessa época de noites ruidosas, de neve artificial nas calçadas,
de casas cheias de luzinhas coloridas. Tudo isso a deixava deprimida.
Ergueu com a mão direita o seu jantar, que se debatia desesperadamente,
e, sem mesmo olhar para o homem rechonchudo e vermelho cujo pescoço
apertava com força, estalou a sua unha e fez uma punção
na veia da jugular, colhendo habilmente o jato de sangue numa taça
de cristal. Depois, soltou-o, fazendo com que ele desabasse estrepitosamente
no chão. Ora, ela era má, extremamente má... E
estava de mau humor.
Depois de beber lentamente o sangue da taça, segurou de novo
o jantar que tentava escapulir pela porta e, com um suspiro de impaciência,
acabou a refeição, sugando o pescoço gordinho e
suculento até não restar uma gota de sangue no cadáver.
Sangue gorduroso que, embora delicioso, ela tinha jurado evitar! Inferno,
ela estava fazendo tudo errado hoje... Pegou a taça caríssima
de cristal da Boêmia e atirou-a sobre um Portinari na parede.
Que se dane! Pertenciam ao seu jantar e ele não iria mais precisar...
Bufando de ódio de si mesma, deslizou pela parede da mansão
e encaminhou-se para a rua. Precisava de ar fresco.
A multidão tomava quase todas as ruas normalmente desertas nesse
horário. As lojas só fechavam à meia-noite e as
pessoas frenéticas, presas de grande agitação,
andavam em ziguezague, esbarrando umas nas outras, carregadas de pacotes
e crianças barulhentas. Era irritante. Até mesmo a beleza
de Maya, que normalmente arrancava suspiros invejosos das mulheres e
olhares cobiçosos dos homens, passava despercebida em meio a
esse mar de gente. As pessoas olhavam através de Maya, para as
malditas vitrines, sempre elas... Um som estridente elevou-se acima
do burburinho. Era uma buzina. E outra e outra. Por fim, uma sinfonia
insuportável soou na noite, obrigando Maya a abrigar-se dentro
de uma magazine, exausta e nervosa. Mas, ao dar-se conta de onde estava,
ela sentiu-se um pouco melhor.
Apesar de sua natureza de vampira, Maya não perdera alguns hábitos
que cultivava quando era mortal. Uma delas era fazer compras compulsivamente
quando estava deprimida ou carente, e, ali parecia um local ideal para
gastar muito dinheiro sem chamar atenção... Escolheu um
lindo vestido negro, semi-transparente e bem justo, desenhado pelo estilista
da moda. Ficaria espetacular com sandálias altíssimas.
Sem demora, encaminhou-se à sessão de calçados,
queria escolher um par bem caro! Não tardou a ver, exposto na
prateleira, um belo par de sandálias douradas. Eram lindas! Tiras
finíssimas e delicadas e um salto fenomenal. Usá-las seria
um prodígio de equilíbrio... Pegou-as e encaminhou-se
para uma cadeira, queria experimentá-las. Mas uma mulher corpulenta
de cabelos vermelhos alcançou de modo atabalhoado a cadeira e
sentou-se à sua frente. Maya franziu o cenho, arreganhando os
caninos de leve. Não, não podia fazer nada. Não
em público... Sentiu que o sangue lhe subia à cabeça
e o mau humor estava querendo voltar...
- Vendedora! - Gritava a mulher. - Vamos logo, não tenho o dia
todo!
Maya suspirou profundamente e resolveu provar o calçado de pé
mesmo. Seu equilíbrio era excepcional, não precisava se
sentar. Colocou o par no chão e calçou o pé esquerdo.
Servia-lhe muito bem! As tiras eram tão finas que se assemelhavam
a fios de ouro. Mas qual não foi a sua surpresa quando foi pegar
o outro pé e ele estava nas mãos da mulher de cabelos
vermelhos?
- Vendedora! - Ela gritava de novo. - Quero esta sandália.
- Mas não temos mais este modelo. - Disse a vendedora. - Posso
mostrar outros...
- Não quero saber. - Disse a mulher. - Eu quero este!
- Mas a outra cliente está experimentando, senhora! E nem é
seu número, é muito pequeno...
- É exatamente o número que eu quero. - Vociferou ela,
fazendo a vendedora calar-se, intimidada.
- Espere um pouco, - disse Maya, furiosa, - eu vou comprar esta sandália.
- Eu estou na sua frente, meu bem. - Disse a mulher, com um risinho
sardônico. - Eu já comprei! - Ato contínuo, ela
arrancou o outro par das mãos de Maya e encaminhou-se para o
caixa.
Tudo coloriu-se de vermelho na mente de Maya. Se não fosse uma
morta-viva, teria tido algum tipo de ataque, pois as suas artérias
do pescoço quase explodiram nesse momento. Era só saltar
sobre a perua e estraçalhar-lhe toda a carne gorda... Maya respirou
fundo e controlou o seu instinto. Não podia revelar-se em locais
públicos... Ah, mas tinha tanta raiva que podia ter chorado lágrimas
de sangue! Sentiu-se impotente, sem nada a fazer a não ser engolir
a afronta. Largou ali mesmo o vestido que havia escolhido e encaminhou-se
para a saída. Mantenha a dignidade, pequena Maya, dizia de si
para si. Depois de duzentos anos não podia admitir que uma mortal
qualquer tivesse o gostinho de tirá-la do sério. Afinal
de contas era ela que se alimentava de sangue humano. Era ela o monstro
malvado! Ou não era?
Depois daquele dia, Maya não foi mais a mesma. O seu amor-próprio
fora ferido profundamente, sentia-se um ser inferior, frágil,
um nada! Não conseguia mais alimentar-se com a mesma voracidade,
restringindo-se a atacar presas doentes e fracas, muitas vezes animais
como pombos, que existiam em profusão na cidade. Durante os dias,
quando adormecia no seu caixão, era perseguida pelos pesadelos
onde a gorda de cabelos vermelhos gritava “meu bem” com
o mesmo risinho de escárnio. Cada vez mais, Maya ia caindo em
profunda depressão, sem vontade para nada, a não ser perambular
pelas ruas como uma sombra do orgulhoso ser noturno que fora um dia.
Uma noite, ao acordar, Maya ouviu vozes à porta.
- Tem certeza que é aqui, Nestor?
Conhecia aquela voz.
- Então, meu bem, vamos logo! Não tenho a noite toda pra
ver esta espelunca! E vou logo avisando, não estou gostando nada
do que estou vendo, Nestor, você não vai alugar este pulgueiro,
ouviu? Ouviu?
Maya sentiu o seu coração bater novamente por alguns instantes.
Será possível? Então viu-a pela janela. Era ela,
a gorda de cabelos vermelhos e o seu infeliz marido bem ali, na sua
porta... O ruído de uma chave girando na fechadura não
deixava mais dúvidas. Finalmente, Maya deu-se conta que era Natal.
Que Papai Noel existe... E que ela era uma menina muito, muito, má
que acabara de ganhar o melhor presente de sua vida!
Fim