A Dama-Morcega,
segundo Giulia Moon:

O conto A Dama-Morcega, que empresta o nome ao livro, conta a história de uma mulher estranha e assustadora exibida como atração num circo de horrores em São Paulo, no início do século XX.

Pensei sobre esse tema pela primeira vez ao ler sobre o caso verídico de Julia Pastrana, uma mulher que foi explorada como uma monstruosidade circense no século XIX por ter o rosto simiesco e o corpo coberto de pêlos. Fiquei fascinada por esse confronto, antigo como o mundo, entre uma criatura física e psicologicamente diferente da maioria dos seres humanos e os conceitos tradicionais de beleza e normalidade. Esse mote inspirou a história de Agnes, a minha Dama-Morcega, e o seu relacionamento com Olavo Alencar, um médico que tenta decifrá-la.

Os demais contos do A Dama-Morcega trazem mais seres obscuros como demônios, lobisomens, fantasmas e sacis, monstros com os quais tenho convivido de forma amigável desde que comecei a escrever terror fantástico há cerca de cinco anos. Cada uma dessas criaturas tem muito de humano nas suas ações, idéias e sentimentos. Elas amam, sofrem, riem e se divertem. Erram e se arrependem. Às vezes são cruéis, às vezes engraçadas. E, dessa forma, tornam-se um pouco mais reais.

Acho que é isso, no fundo, o que espero das minhas criaturas. Que venham. Que se aproximem. Que tragam consigo a imagem, a voz, o cheiro e o tato de um mundo fantástico.

Nós, amantes do terror, conhecemos muito bem esse desejo. É o apelo que vem da infância, dos contos de fadas, das aventuras no Sítio do Pica-Pau Amarelo, das histórias de assombrações contadas pela nossa avó.

É assim que nós, amantes desse universo especial, nos divertimos. Se, depois de ler um dos meus contos, o leitor sentir uma leve sensação de desconforto ao retornar para o mundo real - que antes lhe parecia tão familiar - ficarei imensamente feliz.

Terei alcançado o meu objetivo.

Giulia Moon.
São Paulo, 2006.