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Na platéia, o doutor Olavo Alencar esperava, pouco à vontade, em meio àquela assistência barulhenta e maltrapilha do Circo Fantástico de Schiavo.
Localizado num barracão isolado no Bexiga, bairro de imigrantes italianos pobres, o circo em nada se parecia com similares famosos, como o Grande Circo Americano que estivera na cidade há alguns anos e que atraíra a assistência seleta de famílias inteiras da sociedade paulistana. Uns poucos tostões bastaram para Olavo conseguir uma entrada para ver a dama-morcega. As demais atrações eram farsas grosseiras, frutos de maquiagem malfeita e apliques grotescos. Mas a dama-morcega era verdadeira. Valia qualquer dinheiro... Afinal, as luzes foram diminuídas. Um garoto começou a martelar um tambor e a platéia aquietou-se, ansiosa pelo início da diversão. A voz grossa e áspera de Schiavo soou:
– Attenzione! Se houver crianças pequenas na platéia, levem-nas para fora. Este é um
spettacolo para pessoas de espírito forte!
Ninguém saiu, claro. As cortinas foram abertas. Schiavo, vestido com uma casaca vermelha, brandia o seu chicote:
– Vocês verão uma criatura capturada nos subterrâneos de Paris. Um monstro que por vinte anos continua jovem e bela.
Una donna que suga sangue dos seus pobres amantes! Un’animale que tem a força de dez homens! Não se aproximem. Façam silêncio... Vejam a incrível e maravilhosa
dama-morcega!
Um segundo par de cortinas foi aberto. A jaula estava lá. E, dentro, Agnes. Usava um vestido branco, diáfano, de bailarina. Olavo fixou os olhos no rosto delicado. A platéia remexia-se, incomodada. Uma mulher frágil estava ali, dentro da jaula, olhando para os assistentes com ar de desamparo. Algumas pessoas sussurraram umas com outras. De repente, alguém gritou:
– Covarde, solte a pobre moça!
Como resposta, Schiavo estalou o chicote sobre o corpo dela. O público soltou uma exclamação em uníssono. Agnes tinha saltado para o teto da jaula e encontrava-se pendurada de cabeça para baixo, desafiando a gravidade como um morcego de verdade. O tambor soou. O chicote estalou de novo. E ela voltou para o chão, onde ficou agachada, os olhos rubros a vigiar os passos do domador.
Extraído
do conto A Dama-Morcega,
Giulia Moon, 2006, Landy Editora.
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