Hum...
Estava olhando pra esses humanos, dear.
Andando assim, apressadinhos, na Avenida Paulista.
Você sentiu a minha fome? Hahaha.
Tá bom. Tá certo... Dava assim na vista?
Estava sentindo entre meus dentes a sensação de vazio,
dear.
Carência afetiva efetiva de tudo, including
you, dear.
Sem lenço, sem documento, nada na mão.
Só uso o que ganhei quando nasci, dear.
As garras e os dentes e a língua... lembra não?
Que você deixou ressecada, como todo o resto.
Que você sugou, egoísta, até o último minuto.
Assim não dá, honey, assim não presto...
O importante na nossa relação é
a felação, dear.
Ah... o mundo entra por aqui todos os dias: fear.
Nesta boca escancarada, cheia de dente.
Extraindo a vida... a cada instante.
Trazida pela língua, esmagada pela mente.
Todos eles continuam passando por esta esquina, dear.
E o vazio vai virando uma nova neurose.
Coisinha estúpida, como o medo do mau hálito.
Esquece, dear, arrepia meus pêlos com outra dose...
Com mais uma história sem pé nem cabeça.
Mas nem vem, querendo que eu enlouqueça,
Não diga que minha neurose é só um mau hábito.
Como engolir os passantes da Avenida Paulista, dear.
Três, dois.
Huuum...