Um Ser Obscuro
por Giulia Moon

Sou um ser que na escuridão viceja,
nas coisas mortas, nos restos d'outrora.
Existo no vazio, imensidão malfazeja,
de tudo o que era e não mais é, agora.

Vivo em nichos de velhos prédios decadentes,
nas páginas de livros mofados na memória,
nas imundas garrafas ressequidas de maltes,
nas lembranças senis, sem nenhuma glória.

Às vezes, só às vezes, consigo sair da letargia,
lanço as garras, velha arma cortante.
E, afinal, alcanço a tenra presa pulsante...

São filhotes humanos, minúsculos seres viventes.
Seus olhos lívidos, dois buracos sangrantes.
Ah, eterna fome que a morte jamais sacia!